domingo, 21 de junho de 2015

1968-2015 Doncovim? Oncotô? Proncovô?

Olá!
Se achegue...

Este blog surge em meio a greve estudantil de 2015 como espaço de reflexão.

Para início de conversa, pode ser interessante situarmos historicamente o que hoje toma forma de greve estudantil. São vários os recapitulamentos históricos possíveis para se traçar uma origem de um processo contemporâneo. Com uma pretensão um pouco mais modesta, podemos arriscar um olhar dialético 47 anos atrás: 1968.

Em 2008 comecei a estruturar um site sobre esse período-chave: [ http://www.freewebs.com/68year/ ] 


Nesta postagem, retomo alguns trechos:

     Pense em 1789 e você logo imaginará o início da revolução francesa. No século XX, 1945 entrou para a História como o marco do fim da Segunda Guerra Mundial e 1989 carrega a lembrança da queda do Muro de Berlim. Todos esses anos têm eventos tão únicos e extraordinários associados a eles que é fácil saber de imediato o que representam.No entanto, nenhum deles possui a aura de magia que acompanha 1968.

     Quarenta anos depois, 68 continua enigmático, estranho e ambíguo como um adolescente em crise existencial. Ele foi o ano da livre experimentação de drogas. Das garotas de minissaia. Do sexo sem culpa. Da pílula anticoncepcional. Do psicodelismo. Do movimento feminista. Da defesa dos direitos dos homossexuais. Do assassinato de Martin Luther King. Dos protestos contra a Guerra do Vietnã. Da revolta dos estudantes em Paris. Da Primavera de Praga. Da radicalização da luta estudantil e do recrudescimento da ditadura no Brasil. Da Tropicália e do cinema marginal brasileiro.

     Foi, em suma, o ano do “êxtase da História, para citar uma frase do sociólogo francês Edgar Morin, um dos pensadores mais importantes do século XX.

          Foi um ano que, por seus excessos, marcou a humanidade.
             As utopias criadas em 68 podem não ter se realizado.
                Mas mudaram para sempre a forma como encaramos a vida.


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Das entrevistas que compilei na época, creio que esta seja a que mais dialogue com o caráter discente da greve atual.


68 por Cohn-Bendit

Um legado de perguntas sem respostas

-- Graça Magalhães-Ruether -- enviada especial - STUTTGART 

      O estudante Cohn-Bendit junto outros 300 estudantes ocupou em Maio de 1968 a Universidade de Nanterre, em Paris, dando início a um movimento cujos efeitos são discutidos até hoje. Daniel Cohn-Bendit, filho de judeus alemães foragidos do nazismo, nascido na França e criado na Alemanha tornava-se então o principal líder do movimento estudantil na Europa.
 

      Hoje, 40 anos e muitos fios brancos no cabelo louro-avermelhado depois, Cohn-Bendit, que acaba de completar 63 anos, é o atual representante do Partido Verde alemão no no Parlamento Europeu; adota posições mais moderadas, mas afirma que o potencial de protestos dos jovens continua existindo -contra injustiças sociais, contra a globalização e a catástrofe climática entre outros. Segundo ele essas manifestações são uma herança de 68.       
                  

      Cohn-Bendit fala ainda sobre as entranhas do movimento estudantil daquela época e diz como acha que ele deve ser visto hoje.






•O GLOBO: Quais são as principais plataformas da juventude de hoje?

DANIEL COHN­-BENDIT: As principais plataformas da juventude de hoje são a luta contra a catástrofe climática e contra a globalizacão injusta, injustiças sociais, desigualdade, guerras. Estes são os temas que mais movimentam a juventude de hoje. Há por exemplo os protestos nos subúrbios de Paris ou em Kreuzberg (bairro de Berlim onde vivem muitos imigrantes). Estes são apenas alguns aspectos. Há os protestos contra o G-8 (grupo dos sete países mais ricos e a Rússia). isso significa que há muita gente que não se sente bem nessa sociedade. Uma outra manifestação de revolta são as pessoas que protestam contra as Olimpíadas de Pequim. As pessoas estão dispostas a protestar. A diferença é, talvez, o fato de essas manifestações não serem reunidas em um único projeto político, como foi o caso nos anos 1960. Mas a disposição para os protestos é o elemento em comum com 1968.



• No seu livro "Esqueça 68", o senhor diz que o movimento de protestos deve ser visto hoje como superado. Por quê?

COHN-BENDIT: A revolta foi importante naquela época porque vivíamos numa sociedade autoritária, onde as mulheres eram tão oprimidas que só podiam assinar um contrato de trabalho com o consentimento dos maridos. Havia na Alemanha o problema do silênclo da geração dos pais que colaboraram ou toleraram os nazistas. Tudo isso ajudou a fazer os protestos explodirem. O ano de 1968 mudou o nosso mundo radicalmente. Mas 1968 não nos dá mais uma reposta para as questões cruciais dos dias de hoje.



• O senhor não tem a impressão de que a juventude de hoje é menos politizada do que a dos anos 1960?

COHN-BENDIT: Eu não diria que é menos politizada. Há 40 anos, nos achávamos que puderíamos modelar o mundo mas não sabíamos do perigo das emissões de gás carbônico, não conhecíamos o desemprego. Eu acho que os jovens têm hoje mais medo do futuro. Hoje é muito mais difícil ser jovem do que era antigamente. Nós não tínhamos medo do futuro nos anos 60 porque naquela época o mundo era muito mais simples. Nós também dissemos muitas asneiras naquela época, como as pessoas que elogiavam o regime ditatorial de Cuba ou da China. Mas dizer que a juventude é hoje apolítica é um erro. A juventu­de hoje tem mais senso de responsabilidade.



• O senhor vê semelhança entre as revoltas na França 2 na Alemanha?

COHN-BENDIT: Todos os países tiveram em comum a revolta antiautoritária. O que ocorreu na Alemanha, na França, o que foi articulado na época também pelo rock, foi uma outra postura de vida. O elemento em comum foi o estilo antiautoritário.



A SITUAÇÃO NO BRASIL ERA DIFERENTE, MUITO MAIS PERIGOSA PARA OS GRUPOS DE PROTESTO



• No Brasil a revolta antiautoritária foi também contra a ditadura militar.

COHN-BENDIT: A situaçao no Brasil era diferente, muito mais perigosa para os grupos de protesto. Nesse aspecto, podemos comparar a situação na Europa Ocidental apenas em parte com a do Brasil. Eu conheço bem o contexto brasileiro por causa do meu amigo Fernando Gabeira, que é também do Partido Verde. Eu conheço muita gente do Brasil, também da época das Diretas Já (que pronuncia em bom português), movimento que surgiu bem mais tarde.



• Na época dos protestos o senhor tinha o apelido de "Da­ny o vermelho'", mas já em contra o comunismo. Qual o papel de Che Guevara na revolta européia?

COHN­-BEND|T: Che Guevara era um ícone, também um símbolo sexual. Mas eu nunca fui um fã de Che Guevara. Eu achava a sua idéia do novo homem um pouco absurda.



• Mas os terroristas da RAF (facção do Exército Vermelho, também conhecida como Baader-Meinhof) viam em Che Guevara um ídolo e uma fonte de inspiraçāo. Por isso criaram o projeto da guerrilha urbana. Os terroristas foram também um produto da revolta estudantil?

COHN-BENDIT: As pessoas que mais tarde se tornaram terroristas participaram dos protestos estudantis no início. Depois, com a radicalizaçăo, houve uma separação dos dois grupos. Havia também muita coisa errada entre os grupos de protesto. Um dos maiores erros dessa época foi sem dúvida o terrorismo. Por isso acho que temos também uma responsabilidade moral pelo terrorismo. Eu não digo que o terrorismo foi uma conseqüência inevitável dos protestos, mas foi um subproduto da fobia antiimperialista da época.




• Quer dizer então que a teoria política elaborada na época pelos líderes dos protestos tornou possível o terrorismo?

COHN-BENDIT: Compreenda que 1968 não era um grupo organizado mas umatendendência antiautoritária, antiimperialista, que existia na época. Nesse movimento havia também uma linha totalitária, que deu origem ao terrorismo. Na vida, acontece de movimentos políticos darem origem a coisas terríveis.



• Como o senhor viu a luta armada dos dissidentes brasileiros contra a ditadura?

COHN-BENDIT: Como uma luta justa, pela libertaçao, que nada tinha em comum com o Baader-Meinhof. Fernando Gabeira lutou no Brasil contra a ditadura. Os terroristas alemães lutaram contra um sistema que podia ser criticado, mas não deixava de ser uma democracia. A luta no Brasil e na América Latina, onde também houve erros, tinha uma outra estrutura. E isso mostra como Fernando Gabeira a processou. Hoje ele é verde, é uma pessoa admirável. Andreas Baader foi um idiota. Fernando Gabeira, que também teve uma ideologla errada, a reviu e se tornou uma personalidade extraordinária que é muito admirada.



• Como o senhor vê o papel da esquerda na Europa hoje?

COHN-BENDIT: Primeiro precisamos definir o que é esquerda. E eu prefiro falar sobre o papel dos verdes, que têm a função de trazer para Europa responsabilidade social e política ecológica. Isso não é fácil.


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• Mas a esquerda está perdendo poder na Europa...

COHN­-BENDIT: Só por causa de Nicolas Sarkozy (presidente) na França? Ele ganhou por 2,5%. Não devemos
exagerar. Depols, ele perdeu as eleições municipais. É verdade que a esquerda na França está fraca, não tem perspectiva. Não quero citar nomes, mas o mesmo ocorre com os social-democratas na Alemanha. O principal problema que temos hoje é descobrir como encontrar um caminho razoável para a regulamentação social e ecológica da globallzação. Essa é a questão central. E a resposta precisa ser encontrada pela esquerda ou pelos verdes.


"O principal problema que temos hoje é descobrir como encontrar um caminho razoável para a regulamentação social e ecológica da globallzação.

Essa é a questão central" COHN­-BENDIT

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Acho que para situar esse relato no contexto brasileiro, seria interessante olharmos algumas entrevistas de pessoas que estiveram engajadas com o movimento estudantil brasileiro na mesma época.

publicada no site, temos a fala da Marília Pêra.


1968 na visão de Marília Pêra


Marília Marzullo Pêra (Rio de Janeiro, 22 de janeiro de 1943) é uma atriz, cantora e diretora brasileira.

É conhecida por sua versatilidade, pois, além de intérprete, canta, dança e atua também como coreógrofa, produtora e diretora de peças e espetáculos musicais.

 " Nos anos 60, Marilia Pera chegou a ser presa durante a apresentação da peça Roda Viva (1968) de Chico Buarque e obrigada a correr nua por um corredor polonês [1]Foi presa uma segunda vez, visto que era tida como comunista, quando policias invadiram sua residencia  "




"Vivemos hoje num mundo muito diferente. Há muito mais liberdade em todos os sentidos. A minha geração foi revolucionária, mudou o mundo. A imprensa fez com que as torturas, as tragédias, muitas coisas vieram à tona. O mundo ficou conhecendo melhor a capacidade de atrocidade do ser humano.

Eu morava praticamente numa favela, na Baixada de Dois Morros, meus pais eram dali. Voltei a morar com meus pais, já tinha casado e me separado. Era uma família muito pobre, de artistas, que não entendia muito bem o que estava acontecendo.

Quando fomos atacados pelo Comando de Caça aos Comunistas, lá no Roda Viva, falei com a minha mãe, pelo telefone, para acalmá-la. Ela me perguntou se isso era coisa dos comunistas. Eu falei: 'não, mãe, é justamente o contrário'. Ela perguntou: 'você é comunista?'. Respondi: 'Não sei mãe, acho que sou'. Diante de tais acontecimentos, você precisava, tinha necessidade de ser uma pessoa de esquerda. Sabíamos das violências que estavam sendo cometidas nos porões.

Estive presa. Fui levada duas vezes. Primeiro, em casa. Havia 50 homens dentro de casa, meu filho pequeno dormindo. Estávamos procurando dois componentes do elenco da peça “A vida Escrachada de Joana Martini", que tinham sido raptados na porta do teatro. Saímos em bando procurando pelos dois nas delegacias. Eu era considerada a chefe gangue, porque tinha feito Roda Vida, participado de passeatas. Fiquei presa por dois dias no Segundo Exército em São Paulo, com Ruth Escobar, Renato Consorte. Eles estavam procurando o Plinio Marcos. Como eu era muito magrinha, fraquinha, me liberaram, me levaram de camburão de volta para casa.

1968 foi um aprendizado inesquecível. Éramos quase felizes, tínhamos coragem, éramos jovens, queríamos mudar o mundo.

A polícia passava na porta da minha casa dizendo coisas, o número do meu telefone estava escrito em paredes. Eu não temia pela minha vida, mas pela de meu filho, que tinha 7 anos. Ao mesmo tempo que íamos para passeatas, reuniões, aparelhos, também íamos a festas loucas, revolucionárias, a gente gritava, chorava, ria, se abraçava, ficava sabendo quem estava preso, torturado.

A gente não discutia essa coisa da liberdade comportamento. Era mais o cerceamento cultural e artístico, nossas peças eram proibidas, lacravam nossa bilheteria. Não havia essa coisa estamos fazendo uma revolução comportamental,

O comportamento sexual e amoroso parece que veio como um fogo. Nessa época tínhamos 23, 24 anos. Para nós era muito fácil o amor ao próximo, era muito fácil tirar a roupa em cena, encarar a nudez como obra de arte, como um despojamento necessário, como um ato de coragem. A relação sexual era sem culpa, sem traumas, mas sempre amorosa, você podia dar a vida para aquela pessoa que estava com você.

Eu detesto hoje qualquer tipo de violência, os caminhos deveriam ser abertos na doçura, na delicadeza. Nos anos 60, a violência bateu no meu nariz, na Baixada dos Morros, às vezes eu chegava e tinha uma pessoa morta, vivo essa realidade desde muito nova. Nunca tive o espírito da vingança, que foi o que aconteceu por ocasião do Roda Vida. A gente queria que aquelas pessoas parassem de nos castrar, queria que essas pessoas se conscientizassem à força.

Foi um momento muito criativo, eu vinha começando uma carreira de atriz, era bailarina. Fui aclamada, substituí a Marieta Severo em São Paulo.

Eu tinha visto Roda Viva no Teatro Princesa Isabel no Rio e confesso que não entendi nada. Mas eu não alcancei a coragem, não entendia a revolução que o Zé Celso pretendia. Achei um espetáculo estranho, violento, porque vinha para a platéia e sacudia as pessoas. Eu não alcancei.

Eu diria que comecei a acordar politicamente quando fui atacada por essa gente no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. Eu não era de direita, de esquerda, de nada. Eu era do morro. Não tinha um tostão. Só queria ser atriz.

Aprendi com 68, aos trancos e barrancos, me envolvendo totalmente em tudo. Fui aprendendo que essa coisa da política, do poder, é complicada. Há muitos interesses em jogo. Eu imaginava que o amor e a igualdade social resolveriam tudo.

Mas foi muito importante o que fizemos, mostrou que é tudo igual, direita, esquerda. O que as pessoas querem é dinheiro e poder. O resto é utopia.

Tudo o que fiz em 68 foi com o coração na mão, na boca. É como estivesse dando a vida."

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