domingo, 21 de junho de 2015

Mais Filmes...


Os 35  Filmes 


170413 novecento











Cinema e socialismo foram colegas de escola no princípio do século XX. Às vezes juntos, cresceram, apaixonaram-se, magoaram-se, desiludiram-se e continuaram a aprender.



Esta lista, inevitavelmente incompleta e truncada de injustiças, resgata da História do Cinema as melhores e mais belas encarnações dos ideais da esquerda.

35º Capitalismo, uma História de Amor (Capitalism, a Love Story)
País: Estados Unidos da América
Ano: 2009
Realizador: Michael Moore
Esta história de amor é o retrato da crise do capitalismo a partir do seu próprio berço. De Michael Moore, também poderíamos incluir Sicko ou Bowling for Columbine, masCapitalismo corresponde ao zénite da evolução ideológica do realizador norte-americano, não acabasse o filme ao som da Internacional. Mas sobretudo, o documentário perfaz a lista pelos relatos dramáticos dos trabalhadores que pagam na pele o preço do amor dos EUA pelo capitalismo.

34º As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1940
Realizador: John Ford
O clássico de Steinbeck encontra uma justa homenagem nesta adaptação de John Ford.As Vinhas da Ira conta a história de uma família de camponeses que, expulsa pelos latifundiários das terras onde viviam e trabalhavam, é forçada a uma longa viagem rumo à Califórnia em busca de trabalho. Pelo caminho, encontram a fome e a discriminação, mas também a solidariedade, a consciência de classe e a dignidade.

33º Sambizanga
País: Angola
Ano: 1973
Realizador: Sarah Maldoror
Sambizanga arruma com o mito do “brando colonialismo português” numa clara e inequívoca afirmação da estética e cultura africanas. Domingos, militante do MPLA, é sequestrado pela PIDE e torturado durante vários dias. Entretanto, a sua família procura-o desesperadamente entre o desespero do povo angolano. Filmado no Congo com guerrilheiros do MPLA e do PAIGC na maioria dos papéis e baseado na obra de José Luandino Vieira, Sambizanga é um dos mais poderosos filmes anti-coloniais de todo o continente africano.
32º Clube da Luta (Fight Club)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1999
Realizador: David Fincher
Quando o capitalismo não nos mata de fome, mata-nos de aborrecimento. O Narrador, magnificamente interpretado por Edward Norton, consome-se entre catálogos IKEA e a voragem da rotina. Alienado do seu próprio trabalho, da sociedade e de si próprio, conhece Tyler Durden um perigoso maníaco que pretender explodir o mundo financeiro.
Muita tinta já correu sobre o Clube de Combate, que tal como o livro homónimo, já foi acusado de proto-fascista, sexista e niilista. Mas como dizia Saramago, todas as histórias se podem contar de outra maneira.
31º Doutor Fantastico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1964
Realizador: Stanley Kubrick
Poucas etiquetas políticas cabem na lapela de Kubrick mas Doutor Estranhoamor é em si mesmo, um manifesto político. Rodada no auge da guerra fria, quando a sombra de um holocausto nuclear pairava sobre as cabeças de toda a humanidade, esta sátira expõe ao ridículo a lógica anti-comunista da América do senador McCarthy. Curiosamente, 50 anos mais tarde, os EUA estão de novo no centro de uma escalada de provocações nucleares. A única diferença, é que ainda não acusaram os coreanos de querer envenenar o abastecimento de água dos EUA.

30º Machuca
País: Chile
Ano: 2004
Realizador: Andrés Wood
Chile, 1973. Dois rapazes são unidos pela amizade e separados pelas classes sociais. Este é um filme sobre a adolescência, com toda a esperança e violência que ela comporta e, por isso mesmo, a melhor lente sobre a História recente do Chile. MasMachuca é muito mais do que uma rara janela para a experiência socialista de Allende e uma crítica à podridão da burguesia que engendrou Pinochet. É por direito, um dos melhores filmes chilenos alguma vez produzidos.





29º Inside Job - A Verdade da Crise (Inside Job)
País: Estados Unidos da América
Ano: 2010
Realizador: Charles Ferguson 
Inside Job - A Verdade da Crise, obra prima de Ferguson, é um documentário que todos deveríamos ver. Num momento em que os desejos e caprichos do Deus-Mercado são cada vez mais descritos como insondáveis e ininteligíveis pelos comuns mortais, este filme explica as origens da crise capitalista que hoje vivemos de uma forma brilhante. Ferguson entrevista os maiores responsáveis directos pela crise, encosta-os à parede e faz o nosso sangue ferver.
28º A Batalha do Chile (La Batalla de Chile)
País: Chile
Ano: 1978-1980
Realizador: Patricio Guzmán
A Batalha do Chile é justamente considerado o melhor documentário latino-americano de todos os tempos. Justamente. No total, são quatro horas e meia de História com H grande, centrada na luta dos trabalhadores, nas conquistas da sua revolução e na resistência ao fascismo. Mas nenhuma das três partes que compõem A Batalha do Chilesão filmes de arquivo: tudo foi filmado no momento e no local. O operador de câmara Jorge Müller Silva foi sequestrado pela polícia de Pinochet durante as filmagens e é um dos 3000 chilenos que continuam desaparecidos.

27º Norma Rae
País: Estados Unidos da América
Ano: 1979
Realizador: Martin Ritt
Tal como todos na sua família e nesta pequena cidade da Carolina do Norte, Norma Rae (uma impecável Sally Field) trabalha na fábrica de algodão. Recebe o salário mínimo e parece condenada a aceitar todas as condições que o patrão lhe impõe. Até que um dia, chega Reuben Warshowsky (Ron Leibman), um sindicalista decidido a organizar os trabalhadores da fábrica. Baseado em factos reais, Norma Rae é uma homenagem despretensiosa à operária americana como ela é e à luta que tem em comum com os trabalhadores do mundo.

26º Cinco Dias, Cinco Noites
País: Portugal
Ano: 1996
Realizador: José Fonseca e Costa
José Fonseca e Costa consagrou-se neste filme como um dos mais competentes realizadores portugueses. Cinco Dias, Cinco Noites é uma espantosa e fidedigna viagem ao Portugal dos anos 40. Conta a viagem de um preso político evadido que procura cruzar a fronteira com a ajuda de um intratável “passador”. A antipatia entre os dois homens dá lugar a uma bela amizade nesta excelente adaptação ao cinema do romance homónimo de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal.
25º O Fim de São Petersburgo (Конец Санкт-Петербурга)
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1927
Realizador: Vsevolod Pudovkin

Um camponês desempregado chega a São Petersburgo à procura de trabalho. Sem querer, acaba por denunciar um velho amigo à polícia, que o envia para a frente de batalha da I Guerra Mundial. O Fim de São Petersburgo é poesia celuloide em estado puro, 80 minutos de beleza intensa e golpes poderosos. É o irmão gémeo do famosoOutubro de Eisenstein mas ao contrário deste, que se centra nas massas, Pudovkin dedica-se ao indivíduo e à sua importância na revolução, sem nunca no entanto o demitir da sociedade, da sua classe e do seu partido.






24º Edukators (Die Fetten Jahre sind Vorbe)
País: Alemanha e Áustria
Ano: 2004
Realizador: Hans Weingartner
Uma estudante universitária tem um pequeno acidente de carro. Até aqui tudo bem. Acontece que não tinha seguro. Menos bem. E a isto acresce que o tipo do carro da frente, não é nem mais nem menos que um dos maiores bilionários do país e que os danos provocados valem dezenas de milhares de euros. Condenada em tribunal a pagá-los por inteiro, a jovem é forçada a deixar os estudos e a aceitar empregos precários por salários de miséria. Mas quando não se tem nada, também não se tem nada a perder. Os Edukadores correspondem o terror dos capitalistas na mesma medida. Como? A) Entrar furtivamente nas mansões dos ricos B) Criar pirâmides com toda a mobília e alterar toda a configuração da casa. C) Deixar uma nota: “Os vossos dias de abastança acabaram”.

23º Os Santos Inocentes (Los Santos Inocentes)
País: Espanha
Ano: 1984
Realizador: Mario Camus
Ver Os Santos Inocentes é como entrar num museu cheio de Goyas. As cenas lúgubres, cinzentas e magistralmente bem compostas podem-nos fazer duvidar do século em que o filme tem lugar, mas esta família espanhola sobrevive sem água nem electricidade nos vizinhos anos 60. O arcaísmo do latifúndio como ele é: um sistema medieval onde os caprichos dos senhores valem mais que a vida dos camponese.; Mas até nesta enorme prisão a céu aberto que reduz mulheres e homens a cães de caça (literalmente), todas as criaturas têm um limite.
22º Queimada
País: Itália
Ano: 1969
Realizador: Gillo Pontecorvo 
Um provocador inglês enviado à ilha fictícia de Queimada para incitar uma revolta de escravos contra o colonialismo português. Os ingleses servem-se dos sentimentos independentistas dos escravos para se apropriarem eles próprios do comércio do açúcar, mas a revolta dos escravos ganha pernas próprias e prova-se difícil de controlar. Marlon Brando é irrepreensível no papel de William Walker, um cínico mercenário inglês que compreende demasiado bem a lógica do lucro e a desumanidade do colonialismo para lhes ser indiferente.
21º Matewan
País: Estados Unidos da América
Ano: 1987
Realizador: John Sayles
Este filme é uma refrescante surpresa de Hollywood, que com um elenco salpicado de estrelas (Chris Cooper, James Earl Jones, Mary McDonnell, etc.) e numa linguagem típica dos blockbusters, narra a Batalha de Matewan, na Virgína Ocidental, com acuidade histórica e destemido comprometimento político. O argumento centra-se na chegada de Joe Kenehan, sindicalista e comunista à pequena comunidade mineira de Matewan, onde se dará uma batalha de classes pela dignidade contra o racismo, o capitalismo e a exploração do homem pelo homem.





20º Também a Chuva (También la Lluvia)
País: Espanha, México, Bolívia e França
Ano: 2010
Realizador: Icíar Bollaín
Um dos filmes mais inteligentes dos últimos anos, cheio de subtilezas e resultado da colaboração de pesos pesados da sétima arte como o guionista Paul Laverty e os actores Gael García Bernal e Luis Tosar. Com apurada sensibilidade, Icíar Bollaín apresenta-nos uma equipa de rodagem espanhola que ruma à Bolívia para, ao mais baixo preço, filmar um documentário sobre a chegada de Cristóvão Colombo à América. Paulatinamente, o guião do documentário, que narra a história do genocídio e resistência dos indígenas, inspira e reflecte uma luta de vida ou morte contra a privatização da água, em que os índigenas contratados como extras se decidem a ser, de uma vez por todas, protagonistas da sua própria História. Uma bela história, sobre um povo ajoelhado que aprende a caminhar.






19º Os Diários de Motocicleta (Diarios de motocicleta)
País: Argentina, Chile, EUA, Peru, França. Alemanha e Reino Unido
Ano: 1969
Realizador: Walter Salles
Baseado nos diários do Guerilheiro Heroico, este filme biográfico consegue a proeza rara de contar a travessia trans-americana do jovem Ernesto de acordo com a máxima do mesmo: duramente, mas sem perder a ternura. Produção internacional de uma rara beleza, Os Diários de Motocicleta mostram uma América explorada e ajoelhada, mas igualmente o profundo amor dos comunistas à humanidade, ao ponto de morrer por ela e também de nos fazer chorar.
18º A Greve (Стачка)
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1925
Realizador: Sergei M. Eisenstein
A primeira longa-metragem de Eisenstein faz os filmes mudos coevos parecerem anémicos. A Greve é uma obra de arte tão original como arriscada, que define já a finura de Eisenstein e, por corolário lógico, a genética do cinema moderno. Ao contrário de muitos outros filmes mudos da época, os actores não precisam de exagerar as expressões faciais para compensar com histrionismo a incapacidade de falar. Eisentein consegue tudo por todos os meios. Através de colagens, ângulos de câmara loucos, rápidas sequências entrecortadas e efeitos especiais, ficamos a conhecer a miséria dos operários russos, as suas reivindicações, a sua corajosa luta e, por fim, a sua brutal supressão.





17º A Melhor Juventude (La meglio gioventù)
País: Itália
Ano: 2003
Realizador: Marco Tullio Giordana 
Seis horas de filme não é brincadeira. Mas em A Melhor Juventude não há nem um minuto em excesso e o resultado final prima pelo brilhante exercício de economia. É que Giordanna está a contar-nos a história de um grupo de amigos ao longo de 50 anos e qualquer grupo de amigos a sério tem muito que contar. As actuações são brilhantes e o argumento é tocante. Mas o que mais sobressai, é a honestidade com que se aborda a história recente de Itália, das lutas dos estudantes universitários às Brigadas Vermelhas até à diluição dos ideais socialistas. Um filme que todos deveriam conhecer.





16º Che
País: Espanha, França, EUA
Ano: 2008
Realizador: Steven Soderbergh
O Che dizia que numa revolução, se for verdadeira, ou se triunfa ou se morre. As duas partes deste filme revelam a crueza da guerra revolucionária, para lá de quaisquer fantasias esquerdistas. Benicio del Toro converte-se em Guevara com tanta arte que nada nas suas palavras, nos seus trejeitos ou mesmo na sua aparência física o denuncia. Che é uma sublime e original lição de humanidade, que salpica com generosidade e comunismo os mais ínfimos detalhes de uma guerra tão sangrenta e brutal como cada vez mais necessária.





15º Estado de Sítio (État de Siège)
País: França e Itália
Ano: 1972
Realizador: Costa-Gavras
Costa-Gavras foi um dos realizadores mais politicamente comprometidos do século passado. E também um dos melhores. Em Estado de Sítio, o génio grego explora as brutais consequências do imperialismo norte-americano nos regimes sul-americanos. Com Yves Montand e Renato Salvatori nos papéis principais, o filme segue o grupo de guerrilha urbana durante o sequestro e interrogatório de um dirigente da CIA. Baseado no sequestro de Dan Mitrioni pelos Tupamaros uruguaios, Estado de Sítio foi apedrejado pelos críticos de cinema dos EUA que o acusaram de propagandear mentiras sobre o envolvimento dos EUA na promoção de ditaduras na América do Sul. Um ano mais tarde, a CIA oferecia o Chile para abate a Pinochet.
14º Brisa de Mudança (The Wind that Shakes the Barley)
País: Irlanda, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha, França, Bélgica e Suíça
Ano: 2006
Realizador: Ken Loach
Da Irlanda à Colômbia, passando pelo País Basco ou pelo Vietname, há um sentimento que predispõe povos pacíficos a se levantarem em armas para matarem os seus irmãos. É do antiquíssimo sentimento de humilhação que trata este filme. É pesado, triste e duro de se ver, mas indispensável para quem pretender compreender a luta dos irlandeses pela liberdade. Com trabalhos de fotografia e direcção de primeira classe, Ken Loach traz-nos aos anos vinte do século XX irlandês, para conhecer o trágico percurso de dois irmãos no IRA.




13º Apocalyspe Now
País: Estados Unidos da América
Ano: 1979
Realizador: Francis Ford Coppola
Um dos clássicos do cinema americano e provavelmente a melhor adaptação ao cinema de qualquer livro. Baseado no Coração das Trevas de Joseph Conrad, Apocalypse Now substitui o colonialismo belga no Congo pelo imperialismo norte-americano no Vietname, denunciando a monstruosidade da guerra e a desumanização dos soldados. Fotografado com a mestria de Coppola, Apocalypse Now é uma poderosa metáfora sobre a natureza humana e o mais competente dos ensaios cinematográficos sobre a guerra.
12º Outubro (Октябрь (Десять дней, которые потрясли мир))
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1927
Realizador: Sergei M. Eisenstein
Estreado no quadro das comemorações do 10º aniversário da Revolução de Outubro, o filme Outubro é uma revolução em si próprio: a abordagem à teoria da montagem de Eisenstein desconstrói a formalidade narrativa do cinema convencional e introduz a edição e a pós-produção como meios de alcançar a dialética. Esteticamente tão arrojador como o período histórico que retrata, Outubro definiu para sempre o imaginário mundial da revolução socialista russa.




11º Eu Sou Cuba (Soy Cuba)
País: Cuba e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1964
Realizador: Mikhail Kalatozov
Eu sou Cuba é o impensável resultado da colaboração entre um poeta e um realizador soviéticos, e um escritor cubano, que contam a História de Cuba na primeira pessoa. Uma nação arrastada pelos rodapés de historiografias estrangeiras levanta-se do chão e consegue a verdadeira independência. Eu Sou Cuba é inacreditável, uma viagem sideral filmada num preto e branco belissimamente fotografado. Os ângulos de câmara são acrobáticos, os cortes são psicadélicos e a música é autenticamente cubana.





10º Reds
País: Estados Unidos da América
Ano: 1981
Realizador: Warren Beatty
Esta mega-produção de Hollywood entra no décimo lugar da lista pela porta grande da sétima arte. Não sei o que neste filme é mais apaixonante: as inspiradoras actuações de Jack Nicholson, Diane Keaton, Maureen Stapleton e, sobretudo Warren Beatty no papel de John Reed (o jornalista americano que no calor da Revolução de Outubro escreveu “Os Dez Dias que Abalaram o Mundo”)? Ou o brilhante guião que nos transporta aos loucos anos 20, às eternas discussões e contradições da esquerda e ao mais relevante acontecimento histórico do século XX? Ou as adoráveis entrevistas a uns improváveis e brilhantes velhinhos americanos?





9º Às Segundas ao Sol (Los Lunes al Sol)
País: Espanha
Ano: 2002
Realizador: Fernando León de Aranoa
Um monumento à classe operária como ela é e não como nós gostaríamos que ela fosse. A história dos operários navais de Vigo, na Galiza, a quem o capitalismo roubou o trabalho, a vida e a esperança mas nunca a dignidade. Um filme que só não fará chorar os ricos e os corações empedernidos que nos fala das pequenas misérias e prazeres do povo trabalhador: a operária de peixaria que não se consegue libertar do fedor; o imigrante de leste que conta aos amigos que na URSS era cosmonauta; o desempregado de meia-idade que se recusa a aceitar que ninguém lhe dá trabalho por ser velho demais; o antigo operário que lutou, fez greves e manifestações que perdeu e voltaria a fazer tudo outra vez; o cínico que traiu a sua classe por uns trocos. O retrato perfeito de quem sobrevive num eterno domingo.





8º Tempos Modernos (Modern Times)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1936
Realizador: Charlie Chaplin
A arte de Charlie Chaplin é agarrar um argumento sem nada de especial e num conjunto de cenas cómicas do mais simples que há e criar uma das obras primas do cinema: uma peça de arte de valor cinematográfico, artístico e histórico transcendente, que ressoa através do tempo e chega aos nossos com a mesma autoridade. O protagonista é um trabalhador que apenas quer levar uma vida honesta e ganhar para o pão, mas por alguma razão, tudo lhe corre mal e essa razão chama-se capitalismo.
7º Horizontes de Glória (Paths of Glory)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1957
Realizador: Stanley Kubrick
Horizontes de Glória é talvez a obra cinematográfica que melhor personifica os ideias anti-belicistas da esquerda. A película leva-nos às trincheiras fratricidas da I Guerra Mundial, onde seres humanos são jogados contra a lógica no campo de batalha pelos burocratas da morte. Quando um batalhão se recusa a avançar para uma morte certa, quatro soldados são escolhidos para ser fuzilados como bodes-expiatórios, pondo em marcha um debate marcante sobre o nacionalismo burguês, a autoridade e o valor da vida.






6º O Ódio (La Haine)
País: França
Ano: 1995
Realizador: Mathieu Kassovitz
O Ódio é um murro no estômago. Nesta Paris já não mora Amélie Poulain. Nesta França não há gente bonita a sonhar acordada entre os cafés dos anos sessenta, os jardins renascentistas e os apartamentos Haussmann. O Ódio é uma viagem com os excluídos da sociedade francesa, os que cheiram mal e não gostavam da escola. Não paternaliza nem idealiza, limita-se a seguir e a escutar os embaixadores da racaille, que cometem pequenos crimes, enfrentam os neonazis e o desprezo da sociedade, mantêm alguns dos diálogos mais autênticos do cinema francês e, contra todas as expectativas, sonham.






5º Harlan County, USA
País: Estados Unidos da América
Ano: 1976
Realizador: Barbara Kopple 
Como cantam os mineiros no filme, “Dizem que em Harlan County / por lá não há neutrais. / Ou és um sindicalista / ou um arruaceiro para o J. H. Blair. / De que lado estás, rapaz? / De que lado estás?” Este documentário está para os anos setenta comoOutubro de Eisenstein está para os anos 20: é um autentico manual de organização de greves e um indescritível testemunho da coragem dos mineiros americanos. Os protagonistas desta luta, especialmente as mulheres, são tão genuínos que reduzem as personagens de qualquer obra de ficção a meras caricaturas. Nunca ouvi falar de quem terminasse o filme com os olhos secos.





4º O Sal da Terra (The Salt of the Earth)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1954
Realizador: Herbert J. Biberman
“Como posso começar a minha história que não tem começo? O meu nome é Esperanza, Esperanza Quintero. Sou a mulher de um mineiro. Esta é a nossa casa. A casa não é nossa. Mas as flores… as flores são nossas. Esta é a minha aldeia. Quando eu era uma criança, chamava-se São Marcos. Os “anglos” mudaram o nome para Zinc Town. Zinc Town, Novo México. As nossas raízes neste lugar são profundas. Mais profundas que os pinheiros, mais profundas que a mina”. Assim começa O Sal da Terra, que esteve banido nos Estados Unidos até aos anos 60. Todos os envolvidos na sua produção foram adicionados à infame lista negra do cinema norte-americano; a protagonista foi deportada para o México e o argumentista passou mais de um ano na prisão. Porquê? Porque este filme é perigoso por ser simultaneamente tão belo e tão corajoso. A luta dos mineiros norte-americanos vista de uma perspectiva de classe em que as mulheres e os imigrantes são líderes e iguais.






3º A Batalha de Argel (La battaglia di Algeri) 
País: Argélia e Itália
Ano: 1966
Realizador: Gillo Pontecorvo
A Batalha de Argel, banido em dezenas de países e censurado em quase todos. A magnum opus de Pontecorvo não se comociona com o falso humanismo burguês nem cede à vertigem infanto-militarista do esquerdismo. Num corte de direcção geniais e com actores tão hábeis que muitos espectadores acreditaram tratar-se de um documentário, mergulhamos numa das mais sangrentas revoluções da História e somos forçados a colocarmo-nos de um dos lados desta brutal barricada, opção que os oprimidos nunca tiveram. Nenhuma outra narrativa cinematográfica descreve de forma tão vívida e detalhada a revolta dos povos colonizados e as questões que A Batalha de Argel coloca são tão válidas para a Argélia dos anos 50 como para o Afeganistão dos nossos dias.


2º O Encouraçado de Potemkin (Броненосец «Потёмкин»)
País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ano: 1925
Realizador: Sergei M. Eisenstein
Aos 88 anos, este filme mudo ainda não perdeu o pio. Pelo contrário, O Couraçado de Potemkin é uma lufada de frescura e ousadia no sapal por onde hoje paira o cinema comercial. A obra-prima de Eisenstein, não é nem mais nem menos que a obra fundadora do cinema moderno, tão bela como inspiradora, tão transgressora formal e esteticamente como revolucionária politicamente. Eisenstein domina a celuloide como Miguel Ângelo domina a pedra ou Matisse domina a cor e consegue levar-nos a cada emoção, a cada surpresa, a cada momento de indignação e solidariedade com tanta subtileza que só nos apercebemos do caminho percorrido chegados ao fim da jornada. Esta é a história verídica dos marinheiros que se recusaram a comer carne podre, porque eram gente. Esta é a história da luta de vida ou morte que se seguiu pela dignidade dos trabalhadores de Odessa, porque também eram gente. Esta é a história do massacre policial que se seguiu e das vozes que não puderam estrangular, porque, como dizia Adriano Correia de Oliveira, ninguém pode vencer um povo que resiste.
1º 1900 (Novecento)

País: Itália, França e Alemanha Ocidental
Ano: 1976
Realizador: Bernardo Bertolucci 
1900 é inigualável. Os campos da Emília-Romanha são a tela para a metáfora acabada do que foi o século XX, onde dois rapazes e duas classes sociais crescem e aprendem, separados por interesses inconciliáveis. Cada fotografia deste filme é um quadro repleto de beleza; todas as actuações, de Gérard Depardieu a Robert de Niro, são brilhantes; a música, de Ennio Morricone, é sublime. 1900 fala sobre a génese do fascismo, a vida dos que trabalham e a luta pelo socialismo na linguagem comum de toda a humanidade: o amor, o ódio, a compaixão e a solidariedade.

Fonte: http://www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/407-cultura-m%C3%BAsica/37613-os-35-melhores-filmes-da-esquerda.html

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Filmes, Minisséries e Livros sobre Greve

Filmes

ABC da greveABC da greve
Ano: 1990
Duração: 75 minutos
Gênero: Documentário
Resumo: Documentário acompanha a greve dos metalúrgicos do ABC de 1979, desde as assembléias dos trabalhadores até as negociações de Lula e das direções sindicais com os empresários que culminam no fim da greve
O que é isso companheiro?O que é isso companheiro?
Ano: 1997
Duração: 105 minutos
Gênero: Drama
Resumo: O filme conta a história de um grupo de jovens militantes do MR-8 que, em 1969, elaboram um plano para seqüestrar o embaixador dos Estados Unidos para trocá-lo por prisioneiros políticos, que eram torturados nos porões da ditadura.
Ano em Que Meus Pais Saíram de FériasAno em Que Meus Pais Saíram de Férias
Ano: 2006
Duração: 110 minutos
Gênero: Drama
Resumo: O filme conta a história de um menino de 12 anos (Mauro) que é deixado pelos pais na casa do avó paterno para fugir da ditadura militar em 1970. Os pais prometem a Mauro voltar até o início da Copa do Mundo.
Cabra-CegaCabra-Cega
Nome Ano: 2005
Duração: 107 minutos
Gênero: Drama
Resumo: Com Débora Duboc e Jonas Bloch no elenco, o filme é ambientado no período da ditadura militar. A fita mostra um guerrilheiro ferido que tem de se esconder no apartamento de um arquiteto e é cuidado por uma mulher. Juntos, eles sonham com uma revolução social no Brasil.
Batismo de SangueBatismo de Sangue
Ano: 2006
Duração: 110 minutos
Gênero: Drama
Resumo: O filme é baseado no livro homônimo de Frei Betto, de 1983, vencedor do prêmio Jabuti. Ambientado na década de 1960, o filme conta a história de frades que fizeram do convento dominicano uma das mais fortes resistências à ditadura militar vigente no Brasil e apóiam a ALN (Aliança Libertadora Nacional).
Quase dois IrmãosQuase dois Irmãos
Ano: 2005
Duração: 102 minutos
Gênero: Drama
Resumo: O filme se passa no Brasil dos anos 70, quando o país vivia sob a ditadura militar e muitos presos políticos foram levados à penitenciária de Ilha Grande, no litoral do Rio de Janeiro, onde dividiram celas com criminosos comuns.
Eles não usam black-tieEles não usam black-tie
Ano: 1981
Duração: 134 minutos
Gênero: Dama
Resumo: Baseado na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri conta a história de um operário que engravida a namorada e resolve se casar. Paralelamente, a empresa em que ele trabalha entre em greve e ele resolve furar o movimento para garantir o emprego, mas entra em embate com seu pai, o líder da greve.
Bye Bye BrasilBye Bye Brasil
Ano: 1979
Duração: 105 minutos
Gênero: Comédia
Resumo: O filme conta a história de três artistas mambembes que cruzam o país com a Caravana Rolidei, fazendo espetáculos para o setor mais humilde da população brasileira e que ainda não tem acesso à televisão. A caravana passa pela Amazônia antes de chegar a Brasília.
Terra em TranseTerra em Transe
Ano: 1967
Duração: 115 minutos
Gênero: Drama
Resumo: A trama conta a história de um jornalista e poeta que tenta mudar a situação de miséria e injustiça que assola o país ao planejar a ascensão ao governo da cidade de Alecrim de um candidato supostamente oposicionista. Inicialmente, tudo vai bem, porém problemas sociais e a corrupção arruinarão suas intenções.
PeõesPeões
Ano: 2004
Duração: 85 minutos
Gênero: Documentário
Resumo: Retrato de pessoas (daí o nome Peões) que participaram das greves do ABC em 1979 e 1980 ao lado de Lula. Não aparecem apenas companheiros do então líder sindical, mas também figuras simples, que circulavam à sua volta, como a dona do bar em que Lula costumava almoçar.
OlgaOlga
Ano: 2004
Duração: 141 minutos
Gênero: Drama
Resumo: Inspirado no livro de Fernando Morais, a produção conta a história da judia Olga Benário. Nascida em Munique em 1908, ela se tornou militante comunista na adolescência. Em 1934, foi designada por Moscou para proteger Luís Carlos Prestes durante sua volta ao Brasil.




Minisséries

Anos DouradosAnos Dourados
Ano: 1986
Duração: 20 capítulos
Gênero: Romance/Drama
Resumo: Minissérie que conta o romance entre dois jovens apaixonados (Marcos e Lurdinha). A trama, ambientada na década de 1950, também mostra a hipocrisia moral e a repressão sexual da época
Anos RebeldesAnos Rebeldes
Ano: 1992
Duração: 20 capítulos
Gênero: Drama/História
Resumo: Minissérie inspirada no livro 1968 O Ano que Não Acabou, de Zuenir Ventura, e o Carbonários, de Alfredo Sirkis, conta a trajetória de um grupo de colegas de escola desde 1964, o início da ditadura no Brasil, até 1979
JKJK
Ano: 2006
Duração: 47 capítulos
Gênero: Drama/História
Resumo: Minissérie que conta a trajetória política de Juscelino Kubitschek desde a sua infância em Diamantina (MG), as dificuldades da família, a formação em medicina até chegar à Presidência da República
Queridos amigosQueridos amigos
Ano: 2008
Duração: 25 capítulos
Gênero: Drama/História
Resumo: Minissérie baseada no romance Aos Meus Amigos, de Maria Adelaide Amaral, conta a história de um grupo de amigos no fim dos anos 80, quando o Brasil ainda enfrentava o fim da ditadura





Livros

1968 O Ano que Não Acabou1968 O Ano que Não Acabou
Autor: Zuenir Ventura
Ano: 1998
Nº de páginas: 332
Editora: Nova Fronteira
Os CarbonáriosOs Carbonários
Autor: Alfredo Sirkis
Ano: 1998
Nº de páginas: 432
Editora: Record
1968: o Ano que Abalou o Mundo1968: o Ano que Abalou o Mundo
Autor: Mark Kurlansky
Ano: 2005
Nº de páginas: 574
Editora: José Olympio
1968: Esquina do Mundo1968: Esquina do Mundo
Autor: Daniel Medeiros
Ano: 1999
Nº de páginas: 96
Editora: Editora do Brasil
Paris 1968: as Barricadas do DesejoParis 1968: as Barricadas do Desejo
Autor: Olgaria C.F. Matos
Ano: 1989
Nº de páginas: 97 páginas
Editora: Brasiliense
Rebelião Estudantil: 1968: México, França e BrasilRebelião Estudantil: 1968: México, França e Brasil
Autor: João Roberto Martins Filho
Ano: 104 páginas
Nº de páginas: 1996
Editora: Mercado de Letras
Rebeldes e Contestadores 1968: Brasil, França e AlemanhaRebeldes e Contestadores 1968: Brasil, França e Alemanha
Autor: Marco Aurélio Garcia e Maria Alice Vieira
Ano: 1999
Nº de páginas: 208 páginas
Editora: Perseu Abramo



Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2008/movimentoestudantil/para_assistir_ler.shtml


Outros Filmes:
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A Classe operária vai ao paraíso (1971) do diretor Elio Petri.

“Um dos filmes mais importantes do cinema político italiano. Lulu Massa é um operário vivido pelo ator Gian Maria Volonté, que trabalha duro para conseguir bônus, mas que, assim, desperta a antipatia dos colegas. Após um acidente de trabalho, ele se engaja na luta sindical.”

Fonte: https://rizoma.milharal.org/2014/06/05/quinta-de-cinema-em-greve/

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Güeros -  ALONSO RUIZPALACIOS (2014)
Uma greve estudantil que já dura meses no campus da Universidade Nacional faz com que Sombra e Santos, dois colegas de quarto, permaneçam em uma espécie de limbo em seu apartamento na Cidade do México. Mas sua rotina ociosa é interrompida pela chegada inesperada do irmão adolescente de Sombra, Tomás, expulso de casa devido a um incidente envolvendo um bebê e um balão de água. Juntos, os três inquietos jovens circulam pela cidade em busca de diversão. Vencedor dos prêmios de melhor filme de estreia no Festival de Berlim 2014 e melhor diretor estreante no Festival de Tribeca 2014.

http://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/gueeros

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I Compagni - Mario Monicelli

Um filme muito tocante ao contar uma história de operários explorados é I Compagni, os companheiros, de Mario Monicelli, um dos top ten da minha lista pessoal de diretores de cinema. Monicelli desenrola seu enredo em Turim, final do século XIX, onde a industrialização avança para o enriquecimento dos industriais e o esforço brutal dos trabalhadores obrigados a 14 e mais horas de trabalho diário.

http://www.cartacapital.com.br/revista/848/lutas-vas-9691.html


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Outros Livros:



DESOBEDIÊNCIA CIVIL - Henry David Thoreau

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action&co_obra=2249

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http://www.ufrgs.br/cdrom/thoreau/thoreau.pdf

A DESOBEDIÊNCIA CIVIL1 "O melhor governo é o que governa menos2 " - aceito entusiasticamente esta divisa e gostaria de vê-la posta em prática de modo mais rápido e sistemático. Uma vez alcançada, ela finalmente equivale a esta outra, em que também acredito: "0 melhor governo é o que absolutamente não governa", e quando os homens estiverem preparados para ele, será o tipo de governo que terão. Na melhor das hipóteses, o governo não é mais do que uma conveniência, embora a maior parte deles seja, normalmente, inconveniente - e, por vezes todos os governos o são. As objeções levantadas contra a existência de um exército permanente - e elas são muitas e fortes e merecem prevalecer - podem afinal ser levantadas também contra a existência de um governo permanente. O exército permanente é apenas um braço do governo permanente. O governo em si, que é apenas a maneira escolhida pelo povo para executar sua vontade, está igualmente sujeito ao abuso e à perversão antes que o povo possa agir por meio dele. Basta pensar na atual guerra mexicana3 , obra de uns poucos indivíduos que usam o governo permanente como seu instrumento, pois, de início, o povo não teria consentido nesta medida.

O que é este governo americano senão uma tradição, embora recente, que se empenha em passar inalterada à posteridade, mas que perde a cada instante algo de sua integridade? Não possui a vitalidade e a força de um único homem vivo, pois pode dobrar-se à vontade deste homem. É uma espécie de arma de brinquedo para o povo, mas nem por isso menos necessária, pois o povo precisa ter algum tipo de maquinaria complicada, e ouvir sua algazarra, para satisfazer sua idéia de governo. Assim, os governos demonstram até que ponto os homens podem ser enga-nados, ou enganar a si mesmos, para seu próprio benefício. Isto é excelente, devemos todos concordar. E no entanto, este governo, por si só, nunca apoiou qualquer empreendimento, a não ser pela rapidez com que lhe saiu do caminho. Ele não mantém o país livre. Ele não povoa o Oeste. Ele não educa. O caráter inerente ao povo americano é que fez tudo o que foi realizado, e teria feito ainda mais se o governo não houvesse às vezes se colocado em seu caminho. Pois o governo é uma conveniência pela qual os homens conseguem, de bom grado, deixar-se em paz uns aos outros, e, como já se disse, quanto mais conveniente ele for, tanto mais deixará em paz seus governados. Se não fossem feitos de borracha, o comércio e o tráfico em geral jamais conseguiriam superar os obstáculos que os legisladores continuamente colocam em seu caminho. E se tivéssemos que julgar estes homens inteiramente pelos efeitos de seus atos, e não, em parte, por suas intenções, eles mereceriam ser punidos tanto quanto aquelas pessoas nocivas que obstruem as ferrovias.
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1968-2015 Doncovim? Oncotô? Proncovô?

Olá!
Se achegue...

Este blog surge em meio a greve estudantil de 2015 como espaço de reflexão.

Para início de conversa, pode ser interessante situarmos historicamente o que hoje toma forma de greve estudantil. São vários os recapitulamentos históricos possíveis para se traçar uma origem de um processo contemporâneo. Com uma pretensão um pouco mais modesta, podemos arriscar um olhar dialético 47 anos atrás: 1968.

Em 2008 comecei a estruturar um site sobre esse período-chave: [ http://www.freewebs.com/68year/ ] 


Nesta postagem, retomo alguns trechos:

     Pense em 1789 e você logo imaginará o início da revolução francesa. No século XX, 1945 entrou para a História como o marco do fim da Segunda Guerra Mundial e 1989 carrega a lembrança da queda do Muro de Berlim. Todos esses anos têm eventos tão únicos e extraordinários associados a eles que é fácil saber de imediato o que representam.No entanto, nenhum deles possui a aura de magia que acompanha 1968.

     Quarenta anos depois, 68 continua enigmático, estranho e ambíguo como um adolescente em crise existencial. Ele foi o ano da livre experimentação de drogas. Das garotas de minissaia. Do sexo sem culpa. Da pílula anticoncepcional. Do psicodelismo. Do movimento feminista. Da defesa dos direitos dos homossexuais. Do assassinato de Martin Luther King. Dos protestos contra a Guerra do Vietnã. Da revolta dos estudantes em Paris. Da Primavera de Praga. Da radicalização da luta estudantil e do recrudescimento da ditadura no Brasil. Da Tropicália e do cinema marginal brasileiro.

     Foi, em suma, o ano do “êxtase da História, para citar uma frase do sociólogo francês Edgar Morin, um dos pensadores mais importantes do século XX.

          Foi um ano que, por seus excessos, marcou a humanidade.
             As utopias criadas em 68 podem não ter se realizado.
                Mas mudaram para sempre a forma como encaramos a vida.


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Das entrevistas que compilei na época, creio que esta seja a que mais dialogue com o caráter discente da greve atual.


68 por Cohn-Bendit

Um legado de perguntas sem respostas

-- Graça Magalhães-Ruether -- enviada especial - STUTTGART 

      O estudante Cohn-Bendit junto outros 300 estudantes ocupou em Maio de 1968 a Universidade de Nanterre, em Paris, dando início a um movimento cujos efeitos são discutidos até hoje. Daniel Cohn-Bendit, filho de judeus alemães foragidos do nazismo, nascido na França e criado na Alemanha tornava-se então o principal líder do movimento estudantil na Europa.
 

      Hoje, 40 anos e muitos fios brancos no cabelo louro-avermelhado depois, Cohn-Bendit, que acaba de completar 63 anos, é o atual representante do Partido Verde alemão no no Parlamento Europeu; adota posições mais moderadas, mas afirma que o potencial de protestos dos jovens continua existindo -contra injustiças sociais, contra a globalização e a catástrofe climática entre outros. Segundo ele essas manifestações são uma herança de 68.       
                  

      Cohn-Bendit fala ainda sobre as entranhas do movimento estudantil daquela época e diz como acha que ele deve ser visto hoje.






•O GLOBO: Quais são as principais plataformas da juventude de hoje?

DANIEL COHN­-BENDIT: As principais plataformas da juventude de hoje são a luta contra a catástrofe climática e contra a globalizacão injusta, injustiças sociais, desigualdade, guerras. Estes são os temas que mais movimentam a juventude de hoje. Há por exemplo os protestos nos subúrbios de Paris ou em Kreuzberg (bairro de Berlim onde vivem muitos imigrantes). Estes são apenas alguns aspectos. Há os protestos contra o G-8 (grupo dos sete países mais ricos e a Rússia). isso significa que há muita gente que não se sente bem nessa sociedade. Uma outra manifestação de revolta são as pessoas que protestam contra as Olimpíadas de Pequim. As pessoas estão dispostas a protestar. A diferença é, talvez, o fato de essas manifestações não serem reunidas em um único projeto político, como foi o caso nos anos 1960. Mas a disposição para os protestos é o elemento em comum com 1968.



• No seu livro "Esqueça 68", o senhor diz que o movimento de protestos deve ser visto hoje como superado. Por quê?

COHN-BENDIT: A revolta foi importante naquela época porque vivíamos numa sociedade autoritária, onde as mulheres eram tão oprimidas que só podiam assinar um contrato de trabalho com o consentimento dos maridos. Havia na Alemanha o problema do silênclo da geração dos pais que colaboraram ou toleraram os nazistas. Tudo isso ajudou a fazer os protestos explodirem. O ano de 1968 mudou o nosso mundo radicalmente. Mas 1968 não nos dá mais uma reposta para as questões cruciais dos dias de hoje.



• O senhor não tem a impressão de que a juventude de hoje é menos politizada do que a dos anos 1960?

COHN-BENDIT: Eu não diria que é menos politizada. Há 40 anos, nos achávamos que puderíamos modelar o mundo mas não sabíamos do perigo das emissões de gás carbônico, não conhecíamos o desemprego. Eu acho que os jovens têm hoje mais medo do futuro. Hoje é muito mais difícil ser jovem do que era antigamente. Nós não tínhamos medo do futuro nos anos 60 porque naquela época o mundo era muito mais simples. Nós também dissemos muitas asneiras naquela época, como as pessoas que elogiavam o regime ditatorial de Cuba ou da China. Mas dizer que a juventude é hoje apolítica é um erro. A juventu­de hoje tem mais senso de responsabilidade.



• O senhor vê semelhança entre as revoltas na França 2 na Alemanha?

COHN-BENDIT: Todos os países tiveram em comum a revolta antiautoritária. O que ocorreu na Alemanha, na França, o que foi articulado na época também pelo rock, foi uma outra postura de vida. O elemento em comum foi o estilo antiautoritário.



A SITUAÇÃO NO BRASIL ERA DIFERENTE, MUITO MAIS PERIGOSA PARA OS GRUPOS DE PROTESTO



• No Brasil a revolta antiautoritária foi também contra a ditadura militar.

COHN-BENDIT: A situaçao no Brasil era diferente, muito mais perigosa para os grupos de protesto. Nesse aspecto, podemos comparar a situação na Europa Ocidental apenas em parte com a do Brasil. Eu conheço bem o contexto brasileiro por causa do meu amigo Fernando Gabeira, que é também do Partido Verde. Eu conheço muita gente do Brasil, também da época das Diretas Já (que pronuncia em bom português), movimento que surgiu bem mais tarde.



• Na época dos protestos o senhor tinha o apelido de "Da­ny o vermelho'", mas já em contra o comunismo. Qual o papel de Che Guevara na revolta européia?

COHN­-BEND|T: Che Guevara era um ícone, também um símbolo sexual. Mas eu nunca fui um fã de Che Guevara. Eu achava a sua idéia do novo homem um pouco absurda.



• Mas os terroristas da RAF (facção do Exército Vermelho, também conhecida como Baader-Meinhof) viam em Che Guevara um ídolo e uma fonte de inspiraçāo. Por isso criaram o projeto da guerrilha urbana. Os terroristas foram também um produto da revolta estudantil?

COHN-BENDIT: As pessoas que mais tarde se tornaram terroristas participaram dos protestos estudantis no início. Depois, com a radicalizaçăo, houve uma separação dos dois grupos. Havia também muita coisa errada entre os grupos de protesto. Um dos maiores erros dessa época foi sem dúvida o terrorismo. Por isso acho que temos também uma responsabilidade moral pelo terrorismo. Eu não digo que o terrorismo foi uma conseqüência inevitável dos protestos, mas foi um subproduto da fobia antiimperialista da época.




• Quer dizer então que a teoria política elaborada na época pelos líderes dos protestos tornou possível o terrorismo?

COHN-BENDIT: Compreenda que 1968 não era um grupo organizado mas umatendendência antiautoritária, antiimperialista, que existia na época. Nesse movimento havia também uma linha totalitária, que deu origem ao terrorismo. Na vida, acontece de movimentos políticos darem origem a coisas terríveis.



• Como o senhor viu a luta armada dos dissidentes brasileiros contra a ditadura?

COHN-BENDIT: Como uma luta justa, pela libertaçao, que nada tinha em comum com o Baader-Meinhof. Fernando Gabeira lutou no Brasil contra a ditadura. Os terroristas alemães lutaram contra um sistema que podia ser criticado, mas não deixava de ser uma democracia. A luta no Brasil e na América Latina, onde também houve erros, tinha uma outra estrutura. E isso mostra como Fernando Gabeira a processou. Hoje ele é verde, é uma pessoa admirável. Andreas Baader foi um idiota. Fernando Gabeira, que também teve uma ideologla errada, a reviu e se tornou uma personalidade extraordinária que é muito admirada.



• Como o senhor vê o papel da esquerda na Europa hoje?

COHN-BENDIT: Primeiro precisamos definir o que é esquerda. E eu prefiro falar sobre o papel dos verdes, que têm a função de trazer para Europa responsabilidade social e política ecológica. Isso não é fácil.


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• Mas a esquerda está perdendo poder na Europa...

COHN­-BENDIT: Só por causa de Nicolas Sarkozy (presidente) na França? Ele ganhou por 2,5%. Não devemos
exagerar. Depols, ele perdeu as eleições municipais. É verdade que a esquerda na França está fraca, não tem perspectiva. Não quero citar nomes, mas o mesmo ocorre com os social-democratas na Alemanha. O principal problema que temos hoje é descobrir como encontrar um caminho razoável para a regulamentação social e ecológica da globallzação. Essa é a questão central. E a resposta precisa ser encontrada pela esquerda ou pelos verdes.


"O principal problema que temos hoje é descobrir como encontrar um caminho razoável para a regulamentação social e ecológica da globallzação.

Essa é a questão central" COHN­-BENDIT

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Acho que para situar esse relato no contexto brasileiro, seria interessante olharmos algumas entrevistas de pessoas que estiveram engajadas com o movimento estudantil brasileiro na mesma época.

publicada no site, temos a fala da Marília Pêra.


1968 na visão de Marília Pêra


Marília Marzullo Pêra (Rio de Janeiro, 22 de janeiro de 1943) é uma atriz, cantora e diretora brasileira.

É conhecida por sua versatilidade, pois, além de intérprete, canta, dança e atua também como coreógrofa, produtora e diretora de peças e espetáculos musicais.

 " Nos anos 60, Marilia Pera chegou a ser presa durante a apresentação da peça Roda Viva (1968) de Chico Buarque e obrigada a correr nua por um corredor polonês [1]Foi presa uma segunda vez, visto que era tida como comunista, quando policias invadiram sua residencia  "




"Vivemos hoje num mundo muito diferente. Há muito mais liberdade em todos os sentidos. A minha geração foi revolucionária, mudou o mundo. A imprensa fez com que as torturas, as tragédias, muitas coisas vieram à tona. O mundo ficou conhecendo melhor a capacidade de atrocidade do ser humano.

Eu morava praticamente numa favela, na Baixada de Dois Morros, meus pais eram dali. Voltei a morar com meus pais, já tinha casado e me separado. Era uma família muito pobre, de artistas, que não entendia muito bem o que estava acontecendo.

Quando fomos atacados pelo Comando de Caça aos Comunistas, lá no Roda Viva, falei com a minha mãe, pelo telefone, para acalmá-la. Ela me perguntou se isso era coisa dos comunistas. Eu falei: 'não, mãe, é justamente o contrário'. Ela perguntou: 'você é comunista?'. Respondi: 'Não sei mãe, acho que sou'. Diante de tais acontecimentos, você precisava, tinha necessidade de ser uma pessoa de esquerda. Sabíamos das violências que estavam sendo cometidas nos porões.

Estive presa. Fui levada duas vezes. Primeiro, em casa. Havia 50 homens dentro de casa, meu filho pequeno dormindo. Estávamos procurando dois componentes do elenco da peça “A vida Escrachada de Joana Martini", que tinham sido raptados na porta do teatro. Saímos em bando procurando pelos dois nas delegacias. Eu era considerada a chefe gangue, porque tinha feito Roda Vida, participado de passeatas. Fiquei presa por dois dias no Segundo Exército em São Paulo, com Ruth Escobar, Renato Consorte. Eles estavam procurando o Plinio Marcos. Como eu era muito magrinha, fraquinha, me liberaram, me levaram de camburão de volta para casa.

1968 foi um aprendizado inesquecível. Éramos quase felizes, tínhamos coragem, éramos jovens, queríamos mudar o mundo.

A polícia passava na porta da minha casa dizendo coisas, o número do meu telefone estava escrito em paredes. Eu não temia pela minha vida, mas pela de meu filho, que tinha 7 anos. Ao mesmo tempo que íamos para passeatas, reuniões, aparelhos, também íamos a festas loucas, revolucionárias, a gente gritava, chorava, ria, se abraçava, ficava sabendo quem estava preso, torturado.

A gente não discutia essa coisa da liberdade comportamento. Era mais o cerceamento cultural e artístico, nossas peças eram proibidas, lacravam nossa bilheteria. Não havia essa coisa estamos fazendo uma revolução comportamental,

O comportamento sexual e amoroso parece que veio como um fogo. Nessa época tínhamos 23, 24 anos. Para nós era muito fácil o amor ao próximo, era muito fácil tirar a roupa em cena, encarar a nudez como obra de arte, como um despojamento necessário, como um ato de coragem. A relação sexual era sem culpa, sem traumas, mas sempre amorosa, você podia dar a vida para aquela pessoa que estava com você.

Eu detesto hoje qualquer tipo de violência, os caminhos deveriam ser abertos na doçura, na delicadeza. Nos anos 60, a violência bateu no meu nariz, na Baixada dos Morros, às vezes eu chegava e tinha uma pessoa morta, vivo essa realidade desde muito nova. Nunca tive o espírito da vingança, que foi o que aconteceu por ocasião do Roda Vida. A gente queria que aquelas pessoas parassem de nos castrar, queria que essas pessoas se conscientizassem à força.

Foi um momento muito criativo, eu vinha começando uma carreira de atriz, era bailarina. Fui aclamada, substituí a Marieta Severo em São Paulo.

Eu tinha visto Roda Viva no Teatro Princesa Isabel no Rio e confesso que não entendi nada. Mas eu não alcancei a coragem, não entendia a revolução que o Zé Celso pretendia. Achei um espetáculo estranho, violento, porque vinha para a platéia e sacudia as pessoas. Eu não alcancei.

Eu diria que comecei a acordar politicamente quando fui atacada por essa gente no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. Eu não era de direita, de esquerda, de nada. Eu era do morro. Não tinha um tostão. Só queria ser atriz.

Aprendi com 68, aos trancos e barrancos, me envolvendo totalmente em tudo. Fui aprendendo que essa coisa da política, do poder, é complicada. Há muitos interesses em jogo. Eu imaginava que o amor e a igualdade social resolveriam tudo.

Mas foi muito importante o que fizemos, mostrou que é tudo igual, direita, esquerda. O que as pessoas querem é dinheiro e poder. O resto é utopia.

Tudo o que fiz em 68 foi com o coração na mão, na boca. É como estivesse dando a vida."